Voto contra a Homofobia, Defendo a Cidadania




Fonte: Thiago Martinez thiago@gazetaregional.com.br

A cada dia, a política brasileira vem se diversificando e atraindo diferentes grupos e classes sociais. Mais uma prova será dada nas eleições deste ano, com o número de candidatos a prefeitos e vereadores, que se assumem como homossexual, alcançando o recorde de 110 pessoas, maior número já registrados em um único pleito no País. Em 2008, um levantamento listou 112 candidatos ligados ao movimento, mas a maior parte desses nomes era de postulantes “aliados”.

De acordo com os dados divulgados pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), vinte e dois partidos apresentaram candidatos gays para outubro, sendo que as siglas de esquerda lideram a lista, puxados pelo seu principal representante, o PT, com 22 nomes. Em seguida, está o PSOL, que terá 13 representantes. Alguns partidos de direita, porém, não ficaram de fora e ofereceram espaço à causa, como o DEM, PSDB, PP, PR e PSDC. 


Para o presidente da ABGLT, Toni Reis, o número representa um avanço histórico para a categoria. “É evidente que ainda sofremos discriminação, mas isso demonstra o crescimento do nosso movimento. Os números mostram que a categoria está mais unida e fortalecida”, afirma. Ele aposta na eleição de pelo menos 10% desse total. Caso a meta seja cumprida, o número de gays eleitos passará de oito, em 2008, para 15, um aumento de 53,3%. 

A maior participação homossexual pode ser ainda mais facilitada, já que Toni acredita que a quantidade de candidatos do movimento deve aumentar. “Vamos descobrir novos nomes, que às vezes não têm relação com nenhuma associação, ou estão em uma cidade muito afastada, mas que são assumidamente gays”, comenta. Ainda de acordo com ele, a lista pode chegar a 150 postulantes. O presidente da ABGLT aproveita para explicar que a estratégia adotada para tentar a vitória é muito parecida com a dos adversários: a união em torno dos interesses comuns. 

Do total de candidatos, porém, apenas dois disputarão a eleição majoritária. Renan Palmeira (PSOL) tentará se eleger prefeito de João Pessoa, na Paraíba. Já Vanessa Portugal disputará a prefeitura pelo PSTU, em Belo Horizonte. 

Movimento lança cartilha
De olho nas eleições, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) lançou uma cartilha com algumas das reivindicações que espera ver nos discursos e propostas dos candidatos LGBT, além da campanha “Voto contra a Homofobia, Defendo a Cidadania”. Segundo os responsáveis, a ideia surgiu a partir da ausência de uma representação política para esse público. Dicas de como identificar um político que apoia as causas e de como votar bem, na ótica do movimento, ocupam parte das 37 páginas da cartilha. Além disso, uma avaliação detalhada de cada partido foi feita, sendo que 12 deles são citados de forma negativa, por supostamente atuarem contra as lutas do grupo. (T.M.)

Propostas vão além dos direitos da classe
Apesar de prioritariamente defenderem os direitos dos homossexuais, os postulantes que fazem parte do movimento deverão empunhar suas bandeiras sob um leque mais amplo: o dos direitos humanos. “A ideia é que a campanha não seja corporativista, mas que outros temas que também afetam nossa comunidade sejam amplamente discutidos. Por isso, queremos apresentar uma plataforma ampla que visa à melhoria da educação, da saúde e da segurança pública”, o presidente da ABGLT, Toni Reis, confirmando que a entidade também irá pautar junto a seus candidatos ideias que defendam o princípio da igualdade. Antes do voto, porém, ele alerta os eleitores: “Não adianta votar em uma pessoa só porque ela é gay. O eleitor tem que conhecer a história do candidato, e principalmente as suas propostas. Orientação sexual não é pauta política”, disse.
No caso de serem eleitos, os candidatos do movimento também deverão seguir algumas regras, dentre elas, priorizar o apoio a projetos de lei que proíbam a discriminação da homofobia. A entidade também reivindica mais audiências públicas para discutir questões relativas aos homossexuais e mais homenagens a lideranças LGBT. Querem ainda a criação de conselhos, planos e coordenações no Executivo para fiscalizar as políticas públicas voltadas à promoção dos direitos homossexual e defendem que os eleitos ajudem a garantir no orçamento recursos financeiros para ONGs da classe. 
Antes de pensar em vitória, porém, os candidatos do movimento terão que quebrar uma segunda barreira, depois do preoconceito: a falta de financiamento de campanha. “Quase todos os nossos candidatos farão campanha sem recursos. Nossos aliados dificilmente estão ligados a grupos econômicos. Não temos igrejas e nem empresas para ajudar a arrecadar dinheiro. Não temos ‘Deltas da vida’, como no esquema do Carlinhos Cachoeira, para dar esse aporte financeiro”,  conclui. (T.M.)